π
πππ ππππππ
Sob a lua que nunca se apaga,
nossos lΓ‘bios se encontraram
como duas chamas que recusam o fim.
Teu gosto Γ© vinho profundo —
antigo, denso, inevitΓ‘vel.
Escorria lento pelo canto da tua boca
como se a noite precisasse de testemunha.
Quando te beijei,
nΓ£o houve mundo,
nΓ£o houve chΓ£o,
nΓ£o houve castelo para onde voltar.
Houve fome.
Uma fome antiga,
anterior ao sangue,
anterior ao nome que carregamos.
Teus lΓ‘bios abriram em mim
um abismo luminoso —
e eu mergulhei.
NΓ£o era desejo apenas.
Era reconhecimento.
Era a alma inclinando-se
para devorar a prΓ³pria eternidade.
As velas ardiam inquietas,
o castelo respirava pedra e sombra,
mas nada era mais vasto
que o espaΓ§o entre nossas bocas
que insistia em desaparecer.
Beijar-te
foi aceitar que nΓ£o hΓ‘ retorno.
Que hΓ‘ amores
que nΓ£o querem repouso,
nΓ£o querem manhΓ£,
nΓ£o querem salvaΓ§Γ£o.
Querem durar.
E duram
na fome que nΓ£o se sacia,
no vinho que nunca seca,
no beijo que nΓ£o termina
porque nunca comeΓ§ou —
apenas sempre foi.
— J. Kasra © 2026 — Todos os direitos reservados
