NA CAPELA ONDE O DESEJO APRENDE A PENSAR
Na capela abandonada,
o silêncio não é silêncio —
é um corpo pensando devagar dentro de mim.
Eu não entro aqui.
Eu sou convocado.
Como se algo antigo me reconhecesse antes do meu próprio nome
e decidisse que eu já não posso mais me pertencer.
Os vitrais quebrados não deixam a luz passar.
Eles a ferem.
Transformam o mundo em memória em carne viva.
E então ela aparece.
Mas não aparece — isso seria simples demais.
Ela acontece.
Como um pensamento que se recusa a terminar.
Como uma ideia que aprendeu a ter pele.
O vermelho não é roupa.
É linguagem sem tradução dentro do sangue.
E eu reconheço isso antes de compreender.
Reconheço com algo mais antigo que a consciência —
um tipo de memória que não pertence a mim.
A vela na mão dela não ilumina.
Ela julga.
Cada gota de cera não cai —
ela desce por dentro da minha percepção
como se o tempo estivesse perdendo o direito de ser linear.
O ar fica mais próximo.
Próximo demais para ser inocente.
Os limites entre olhar e ser olhado começam a falhar.
E essa falha é o começo de tudo.
Não há distância entre nós.
Só uma tensão que aprendeu a respirar sozinha.
E o mais inquietante:
não sei mais quem está criando quem.
Porque há momentos em que sinto
que ela me pensa.
Não me vê — me pensa.
E isso é mais íntimo do que qualquer toque jamais seria.
As sombras se aproximam como se tivessem lembrado de nós.
Como se já nos conhecessem antes de qualquer forma.
E o altar não observa.
Ele participa.
E eu entendo, ou sou desfeito nessa compreensão:
não existe encontro aqui.
Existe reconhecimento.
Algo que sempre esteve acontecendo
antes mesmo de existir um “antes”.
E o desejo — esse nome pequeno demais para o que é —
não pede nada.
Ele ocupa.
Ele pensa através de nós
até que já não reste diferença entre pensamento e corpo,
entre presença e colapso.
E então percebo:
talvez nunca tenha sido uma capela.
Talvez tenha sido sempre uma mente
tentando me lembrar dela mesma.
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