GEOMETRIA DO FOGO SILENCIOSO
Há templos onde a matéria ainda se lembra do primeiro estremecer da criação.
Pedras antigas respiram sal e silêncio, como se guardassem sob a cal o rumor de desejos não confessados.
Uma presença atravessa o espaço — não como corpo, mas como faísca reconhecendo a própria chama.
As velas inclinam suas línguas de ouro, e a penumbra se abre como terra úmida recebendo semente.
Entre ruína e incenso algo desperta na geologia invisível do destino: duas forças antigas tateando na mesma rocha, veios de quartzo ardendo sob a mesma montanha.
Não há gesto, apenas a tensão luminosa do que poderia tocar.
E nesse instante suspenso entre fé e vertigem o passado se desprende das paredes como pó sagrado, enquanto o desejo — lento, mineral, inevitável — aprende novamente a existir.
J. Kasra
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