PAREDES
As paredes são mentirosas.
Fingem proteger enquanto aperfeiçoam a arte da separação.
Absorvem vozes.
Guardam segredos.
Engolem lágrimas.
Mas jamais impedem a solidão de entrar.
Há pessoas que vivem cercadas por paredes e passam a vida acreditando que estão seguras.
Não estão.
Estão apenas distantes.
Porque todo muro é uma fronteira entre o medo e aquilo que ele teme.
As paredes das casas são de pedra.
As do orgulho são de silêncio.
As da covardia são feitas de desculpas.
E estas costumam ser as mais espessas.
As paredes assistem a tudo.
Ao amor transformando-se em hábito.
À paixão transformando-se em ausência.
À presença transformando-se em mobília.
Conhecem o som das portas fechando.
Conhecem o peso das palavras nunca ditas.
Conhecem o eco dos afetos enterrados vivos.
Eis a ironia:
o ser humano passa metade da vida erguendo paredes para não sofrer
e a outra metade tentando descobrir por que ninguém consegue alcançá-lo.
No fim, não são os ventos que nos isolam.
Não são as tempestades.
Não são os abismos.
São os muros que construímos com as próprias mãos e depois chamamos de abrigo.
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