A LÍNGUA DAS LÁGRIMAS
As lágrimas nunca mentem.
Mentem os lábios.
Mentem as mãos.
Até o silêncio aprende a fingir.
As lágrimas, não.
Elas descem quando a alma transborda,
e a alma desconhece a diferença
entre amar, perder,
renascer,
esperar
ou despedir-se.
O mesmo sal
que acompanha um funeral
também beija o rosto
de quem reencontra a luz
depois de uma longa noite.
As lágrimas existem
para lembrar ao orgulho
que toda intensidade
procura um caminho.
Quem nunca chorou de alegria
também nunca compreendeu
a violência da esperança.
Quem nunca chorou diante da beleza
jamais percebeu
que algumas presenças
ultrapassam os limites da linguagem.
E quem já chorou sem motivo
descobriu o mais antigo dos mistérios:
existem sentimentos
grandes demais
para caber dentro das palavras.
Por isso os olhos
aprenderam a escrever em água.
E nenhuma filosofia,
nenhuma religião,
nenhum amor
jamais encontrou
uma tinta mais verdadeira.
J. KASRA - Todos os direitos reservados.
