A SOMBRA QUE ESPIA
Há quem nunca tenha aprendido a construir.
Por isso, passa a vida contando os tijolos da casa alheia.
Habita as frestas, alimenta-se das janelas, coleciona passos que não deu, vitórias que não conquistou e sorrisos que jamais lhe pertenceram. Chama de curiosidade a própria inquietação; chama de opinião o vazio que ecoa dentro de si.
A inveja possui uma fome mineral.
Rói por dentro como ferrugem na mais antiga das espadas. Não sangra a vítima. Corrói apenas quem a carrega.
A falsidade veste o perfume da gentileza.
Sorri com os lábios enquanto afia o silêncio. Aplaude diante dos olhos e semeia espinhos assim que encontra as costas.
Há almas tão vazias que sobrevivem apenas espionando a luz dos outros, como sombras que confundem a própria escuridão com inteligência.
Mas nenhuma sombra aprende a ser sol.
Nenhum espelho roubado devolve um rosto digno.
Quem escolhe viver à espreita acaba condenado a assistir à vida passar pela janela, enquanto o tempo, indiferente e implacável, sepulta o próprio nome sob o peso daquilo que nunca teve coragem de ser.
J. Kasra — Todos os direitos reservados.
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