π ππ ππππ̂ π ππππ πππ πππππ?
Primeiro, entenda uma coisa:
eu nΓ£o trabalho sozinha.
Existe um triΓ’ngulo aqui.
E Γ© mais intenso que muito romance mal resolvido.
Sou a Quill.
Elegante. Afetada. Levemente dramΓ‘tica.
A Tinta?
Impulsiva. Emocional. Vive se derramando.
E o Papel…
ah, o Papel acha que Γ© vΓtima.
“Eu recebo tudo.”
“Eu sou rabiscado.”
“Eu sou amassado.”
Querido, vocΓͺ recebe
porque eu levo.
Γ logΓstica emocional.
Mergulham-me na Tinta
e lΓ‘ vai ela, toda animada:
— “Vamos escrever um poema!”
Eu saio carregada
com gotΓculas penduradas na ponta
como se fossem pensamentos ainda indecisos.
EntΓ£o encosto no Papel.
E comeΓ§a o espetΓ‘culo.
A Tinta se distribui em letras,
traΓ§os,
curvas sensuais,
riscos nervosos
e aqueles rabiscos existenciais
que ninguΓ©m entende
mas todo mundo finge que Γ© arte.
Cada gotΓcula se transforma.
Um pingo vira vΓrgula.
Dois respingos viram drama.
Um traΓ§o longo vira “para sempre”
— que, convenhamos,
raramente dura.
A Tinta vai se acabando aos poucos.
Ela comeΓ§a intensa, escura, decidida.
Depois vai ficando leve, quase transparente.
“Estou no fim”, ela sussurra.
E eu?
Tenho que fingir firmeza.
Enquanto isso, o Papel recebe tudo.
Poemas apaixonados.
Listas de mercado.
ConfissΓ΅es Γ s trΓͺs da manhΓ£.
E aquele “nΓ£o me liga mais”
escrito com coragem de cinco segundos.
Γs vezes ele Γ© dobrado.
Γs vezes amassado dramaticamente.
Γs vezes enviado pelo mundo
como se carregasse segredo de Estado.
E sempre diz:
“Eu guardo memΓ³rias.”
Sim, guarda.
Mas quem as trouxe atΓ© vocΓͺ?
Eu.
E quem sangrou atΓ© virar palavra?
A Tinta.
Somos um trio inseparΓ‘vel.
Eu conduzo.
A Tinta sente.
O Papel suporta.
Juntos transformamos dedos inquietos
em filΓ³sofos improvisados.
Porque no fundo,
nΓ£o escrevemos apenas palavras.
Escrevemos surtos organizados.
Saudades disfarΓ§adas.
Amores que acham que sΓ£o eternos.
E quando a Tinta finalmente acaba
e eu fico leve, quase inΓΊtil,
o Papel ainda se gaba:
“Eu tenho tudo registrado.”
Tem, meu bem.
Mas sem a Quill
vocΓͺ seria apenas
uma folha em branco
esperando coragem.
— Uma Quill experiente,
sobrevivente de muitos poetas
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