2/28/26

𝐀 𝐂𝐀𝐑𝐓𝐀 𝐐𝐔𝐄 𝐅𝐀𝐋𝐀


 

𝐀 𝐂𝐀𝐑𝐓𝐀 𝐐𝐔𝐄 𝐅𝐀𝐋𝐀

Escrevo estas palavras
como quem desenha feitiços em sombras densas,
com as traficâncias da alma e sede que só tua presença apaziga.

A saudade me atravessa
como lâminas gélidas cravadas no coração da noite,
como vinho derramado sobre mármore antigo,
como se a própria escuridão respirasse em minhas veias.

Cada letra é vertigem, cada rabisco, incêndio.
No papel, teu rosto surge entre sombras e teias,
convocando teu espírito em murmúrios proibidos.

Velas morrem lentamente ao redor,
a cera escorrendo como veias de memória.
E enquanto escrevo, sinto:
não é ausência.
É fome profana, desejo ancestral, pacto silencioso,
um ritual de amor que se eterniza em cada suspiro,
em cada sombra, em cada vinho derramado,
até que tu e eu nos tornemos imortais na mesma chama.

— J. Kasra © 2026 — Todos os direitos reservados

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E- book: VELAS & SOMBRAS – UMA VIAGEM POÉTICA ENTRE PAIXÃO E MISTÉRIO


VELAS & SOMBRAS – UMA VIAGEM POÉTICA ENTRE PAIXÃO E MISTÉRIO

Uma coleção de poemas que sussurram entre a escuridão e a paixão.
Entre sombras densas e suspiros secretos, cada verso revela desejos ocultos, medos e encantos proibidos,
convidando o leitor a se perder em um mundo gótico, sedutor e profundamente íntimo.

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𝐄 𝐒𝐄 𝐕𝐎𝐂𝐄̂ 𝐅𝐎𝐒𝐒𝐄 𝐔𝐌𝐀 𝐐𝐔𝐈𝐋𝐋?

 


𝐄 𝐒𝐄 𝐕𝐎𝐂𝐄̂ 𝐅𝐎𝐒𝐒𝐄 𝐔𝐌𝐀 𝐐𝐔𝐈𝐋𝐋?

Primeiro, entenda uma coisa:
eu não trabalho sozinha.

Existe um triângulo aqui.
E é mais intenso que muito romance mal resolvido.

Sou a Quill.
Elegante. Afetada. Levemente dramática.

A Tinta?
Impulsiva. Emocional. Vive se derramando.

E o Papel…
ah, o Papel acha que é vítima.

“Eu recebo tudo.”
“Eu sou rabiscado.”
“Eu sou amassado.”

Querido, você recebe
porque eu levo.

É logística emocional.

Mergulham-me na Tinta
e lá vai ela, toda animada:

— “Vamos escrever um poema!”

Eu saio carregada
com gotículas penduradas na ponta
como se fossem pensamentos ainda indecisos.

Então encosto no Papel.

E começa o espetáculo.

A Tinta se distribui em letras,
traços,
curvas sensuais,
riscos nervosos
e aqueles rabiscos existenciais
que ninguém entende
mas todo mundo finge que é arte.

Cada gotícula se transforma.

Um pingo vira vírgula.
Dois respingos viram drama.
Um traço longo vira “para sempre”
— que, convenhamos,
raramente dura.

A Tinta vai se acabando aos poucos.

Ela começa intensa, escura, decidida.
Depois vai ficando leve, quase transparente.

“Estou no fim”, ela sussurra.

E eu?
Tenho que fingir firmeza.

Enquanto isso, o Papel recebe tudo.

Poemas apaixonados.
Listas de mercado.
Confissões às três da manhã.
E aquele “não me liga mais”
escrito com coragem de cinco segundos.

Às vezes ele é dobrado.
Às vezes amassado dramaticamente.
Às vezes enviado pelo mundo
como se carregasse segredo de Estado.

E sempre diz:
“Eu guardo memórias.”

Sim, guarda.
Mas quem as trouxe até você?

Eu.

E quem sangrou até virar palavra?

A Tinta.

Somos um trio inseparável.

Eu conduzo.
A Tinta sente.
O Papel suporta.

Juntos transformamos dedos inquietos
em filósofos improvisados.

Porque no fundo,
não escrevemos apenas palavras.

Escrevemos surtos organizados.
Saudades disfarçadas.
Amores que acham que são eternos.

E quando a Tinta finalmente acaba
e eu fico leve, quase inútil,

o Papel ainda se gaba:

“Eu tenho tudo registrado.”

Tem, meu bem.

Mas sem a Quill
você seria apenas
uma folha em branco
esperando coragem.

— Uma Quill experiente,
sobrevivente de muitos poetas

© 2026 J. Kasra — Todos os direitos reservados.

𝐀 𝐀𝐋𝐌𝐀 𝐏𝐑𝐄𝐒𝐀

 


𝐀 𝐀𝐋𝐌𝐀 𝐏𝐑𝐄𝐒𝐀

O amor às vezes morre
apenas para permanecer vivo.

Fica preso em dias que não voltam,
em promessas queimadas,
em respirações que não nos pertenceram.

E eu grito por ti
dentro de mim,
rasgo minhas veias de lembrança,
arranco de mim os fantasmas
que ousam te segurar.

Não é saudade.
É guerra.
É faca na carne,
é fogo que não pede licença.

Eu quero teu corpo inteiro,
tua alma inteira,
e não o reflexo pálido
que o tempo deixou aprisionado.

Cada memória é corrente,
cada desejo é espada,
cada silêncio é sombra que eu devo atravessar.

Libertar-te não é escolha,
é obrigação do sangue,
é dever da vida que ainda pulsa
sob o peso do que não fomos capazes de dizer.

E quando finalmente te encontrar
não haverá passado,
não haverá quadro,
não haverá nada além de nós,
inteiros,
incandescentes,
imortais.

— J. Kasra
© 2026 J. Kasra — Todos os direitos reservados.

2/27/26

𝐀𝐋𝐐𝐔𝐈𝐌𝐈𝐀 𝐃𝐄 𝐋𝐎𝐍𝐆𝐄

 



𝐀𝐋𝐐𝐔𝐈𝐌𝐈𝐀 𝐃𝐄 𝐋𝐎𝐍𝐆𝐄

Tu me deste três palavras
como quem entrega fósforos acesos:

cumplicidade.
olhar sensual.
sorriso.

Desde então,
arde.

Há uma ciência secreta
em duas almas que se reconhecem
antes que os corpos tenham permissão.

Estamos longe —
geografia insiste nisso —
mas tua voz atravessa a noite
como se soubesse o caminho exato
da curva do meu silêncio.

Cumplicidade
é essa ponte invisível
onde teus pensamentos chegam
antes que eu os formule.

É rir no mesmo segundo.
É calar no mesmo abismo.
É saber —
sem perguntar.

Teu olhar sensual,
mesmo que eu nunca o tenha tocado,
me percorre.

Ele existe na imaginação
como chama azul:
precisa, concentrada,
capaz de derreter o que parecia sólido.

E teu sorriso —

ah, teu sorriso —

é o gesto que desmonta
qualquer defesa que eu ensaie.

Ele não pede.
Ele convida.
Ele promete mistérios
que não se contam em voz alta.

Falamos baixo,
como se o mundo não merecesse ouvir.

Sussurramos futuros
como quem mistura elementos raros
num laboratório secreto.

Somos alquimistas de algo perigoso:
transformamos ausência em presença,
distância em calor,
espera em desejo maduro.

E quanto mais longe estás,
mais perto te sinto —

como se o universo
estivesse apenas testando
a resistência da chama.

Não sei quando nossos corpos
ocuparão o mesmo espaço.

Mas sei isto:

quando acontecer,
não será início.

Será revelação.

Porque o que queima agora
não é carência.

É reconhecimento.

— J. Kasra
© 2026 J. Kasra — Todos os direitos reservados.

𝐐𝐔𝐀𝐍𝐃𝐎 𝐅𝐈𝐍𝐀𝐋𝐌𝐄𝐍𝐓𝐄

 



𝐐𝐔𝐀𝐍𝐃𝐎 𝐅𝐈𝐍𝐀𝐋𝐌𝐄𝐍𝐓𝐄 

Escrevemo-nos por anos.

Tinta sobre papel,
como se cada carta fosse um pedaço do corpo
enviado pelo correio do mundo.

Houve atrasos.
Invernos inteiros entre uma resposta e outra.
Navios levando promessas pelo mar
como quem carrega pólvora.

Aprendemos a desejar na ausência.
A tocar pela palavra.
A arder em silêncio
sob o peso das horas que não passavam.

E então —

o encontro.

Sem envelope.
Sem selo.
Sem distância que nos salvasse.

Te vi atravessar a estação
com o mesmo olhar que atravessou minhas madrugadas.

O ar perdeu compostura.
Minhas mãos, acostumadas à escrita,
não sabiam o que fazer com a tua presença.

Não era apenas paixão.

Era o acúmulo de todas as cartas não rasgadas,
de todas as frases interrompidas,
de todas as noites em que teu nome
era a única coisa acesa no quarto.

Teu mundo vinha contigo —
as ruas onde andaste sem mim,
as escolhas que te moldaram.

O meu também —
carregado de silêncios
e promessas escritas com febre.

Mas quando nossos olhos se tocaram,
não houve mais passado organizado em gavetas.

Houve choque.

Como se dois continentes
decidissem colidir de propósito.

E naquele instante —

não éramos mais remetente e destinatário.

Éramos incêndio.

— J. Kasra
© 2026 J. Kasra — Todos os direitos reservados.

𝐎 𝐂𝐀𝐋𝐀𝐁𝐎𝐔𝐂̧𝐎 𝐃𝐎𝐒 𝐏𝐄𝐍𝐒𝐀𝐌𝐄𝐍𝐓𝐎𝐒

 



𝐎 𝐂𝐀𝐋𝐀𝐁𝐎𝐔𝐂̧𝐎 𝐃𝐎𝐒 𝐏𝐄𝐍𝐒𝐀𝐌𝐄𝐍𝐓𝐎𝐒

Construo paredes sem perceber.
Ergo-as com medos pequenos,
com palavras que não disse,
com abraços que temi desejar.

O calabouço não tem chão —
tem eco.

E nele guardo minhas paixões inacabadas,
meus desejos com culpa,
meus segredos que fingem dormir.

Há correntes feitas de apego,
há portas trancadas por orgulho.
E cada chave que encontro
é também uma desculpa para não sair.

Sou carcereiro e prisioneiro.

Às vezes abro a janela mínima
e a luz entra como uma pergunta:
“Quem te ensinou a temer o próprio incêndio?”

Mas fecho.
Porque o mundo exige compostura,
e a alma exige vertigem.

E sigo cavando,
não para fugir —
mas para caber melhor
no medo que aprendi a chamar de paz.

— J. Kasra
© 2026 J. Kasra — Todos os direitos reservados.

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𝐄𝐍𝐐𝐔𝐀𝐍𝐓𝐎 𝐄𝐒𝐓𝐈𝐕𝐄𝐑 𝐐𝐔𝐄𝐈𝐌𝐀𝐍𝐃𝐎

 



𝐄𝐍𝐐𝐔𝐀𝐍𝐓𝐎 𝐄𝐒𝐓𝐈𝐕𝐄𝐑 𝐐𝐔𝐄𝐈𝐌𝐀𝐍𝐃𝐎

Ela ainda vive na chama.

Eu a vejo —
presa ao fogo como um milagre que não se apaga.
Teu rosto tremula na luz
e meus séculos se dobram sobre a mesa.

Bebo para conter a eternidade,
mas o vinho apenas acorda tua boca em mim.
Teu nome sobe pelo meu peito
como fumaça que não encontra céu.

Na chama, tu me beijas
como se o tempo nunca tivesse sido cruel.
Teu corpo arde sem se consumir,
e eu ardo sem poder tocar.

Se eu soprar,
perco-te outra vez.

Por isso deixo que queimes.
Deixo que dances na lâmina do fogo.
Deixo que me atormentes com tua presença impossível.

Enquanto estiver queimando,
ainda posso mentir ao meu próprio sangue
e chamar de vida
essa saudade que me atravessa.

— J. Kasra
© 2026 J. Kasra — Todos os direitos reservados.

2/26/26

El Peso de lo Invisible


 

El Peso de lo Invisible

Hay una gravedad
en lo que no dices.

Se acumula
detrás de tus costillas,
una constelación de tormentas incompletas
presionando contra el hueso.

La noche conoce tu verdadero nombre.
Lo susurra
a través de la silenciosa maquinaria de las estrellas.

Caminas por el mundo
como si la luz fuera suficiente —
pero incluso la luz
genera una herida de sombra.

Hay habitaciones dentro de ti
que nadie ha visitado.

Habitaciones donde el silencio
florece como una flor oscura,
perfumada con memoria
y deseo intenso, ardiente y sin nombre.

No estás vacío.

Eres un océano contenido en forma humana,
marea plegándose en la carne,
tirado por la luna y temblando.

Cada respiración que tomas
es una rebelión contra la desaparición.

Cada pausa
es el universo
sosteniéndote
por un segundo suspendido
antes de convertirse en algo más.

Lo invisible no pide fe.
Arde de todos modos.

Y tú —
de pie en el umbral de tu propia profundidad —
eres tanto la llama
como la oscuridad que devora.

— J. kasra  © 2026

2/25/26

𝐎𝐒 𝐏𝐄𝐍𝐒𝐀𝐌𝐄𝐍𝐓𝐎𝐒 𝐐𝐔𝐄 𝐅𝐎𝐆𝐄𝐌


 

𝐎𝐒 𝐏𝐄𝐍𝐒𝐀𝐌𝐄𝐍𝐓𝐎𝐒 𝐐𝐔𝐄 𝐅𝐎𝐆𝐄𝐌

Há pensamentos demais em mim.

Eles não caminham —
se entrelaçam,
como fios elétricos em tempestade,
como raízes procurando o mesmo abismo.

Misturam-se às lembranças
até que já não sei
se recordo
ou invento tua presença.

Minha cabeça tornou-se pequena
para o que insiste em nascer.

Ideias batem contra as têmporas,
memórias escorrem pelos olhos fechados,
teu riso reaparece
sem pedir licença ao silêncio.

É excesso.
É vertigem.
É o nome que não cessa.

E quando já não cabem,
quando o pensamento vira febre
e a lembrança pulsa como carne,
eles fogem.

Escapam de mim
como pássaros assustados,
atravessam a noite
e vão ao teu encontro.

Talvez sintas um arrepio inesperado.
Talvez seja só o vento.

Ou talvez
sejam meus pensamentos
tocando tua pele
antes que eu possa contê-los.

— J. Kasra
© 2026 J. Kasra — Todos os direitos reservados.

2/23/26

𝐀 𝐂𝐇𝐀𝐌𝐀 𝐄 𝐎 𝐒𝐀𝐍𝐆𝐔𝐄 𝐃𝐀 𝐍𝐎𝐈𝐓𝐄


 


𝐀 𝐂𝐇𝐀𝐌𝐀 𝐄 𝐎 𝐒𝐀𝐍𝐆𝐔𝐄 𝐃𝐀 𝐍𝐎𝐈𝐓𝐄

A noite não cai —
ela invade.

Entra pelas frestas,
acende velas dentro do meu peito
e me deixa arder em silêncio.

Teu nome não é palavra —
é lâmina morna
percorrendo o interior da minha voz.

O vinho escorre espesso,
como se carregasse memórias
que ainda respiram.
Bebo —
e cada gole abre uma ferida luminosa.

Há sussurros na névoa,
mas nenhum é mais alto
que o teu corpo lembrado no meu.

As velas tremem.
Não pelo vento.
Mas pelo excesso de tudo
que não cabe na carne.

Amar é isto:
uma combustão lenta,
um incêndio contido entre ossos,
uma noite que devora
e ainda assim
implora por mais.

— J. Kasra

𝐎𝐒 𝐑𝐔𝐌𝐎𝐒 𝐄 𝐎 𝐑𝐔𝐈́𝐃𝐎

 



𝐎𝐒 𝐑𝐔𝐌𝐎𝐒 𝐄 𝐎 𝐑𝐔𝐈́𝐃𝐎

A vida não segue linha reta —
ela se inclina como vento
sobre decisões frágeis.

Há encruzilhadas invisíveis
no intervalo de um pensamento.

E meus pensamentos…
ah, eles não caminham —
eles colidem.
São pássaros batendo contra o céu fechado,
são portas que abrem
antes que eu escolha entrar.

O rumo que tomo
quase nunca é estrada —
é vertigem.

E no meio desse barulho que me habita,
aprendo que viver
é atravessar o próprio eco
sem saber
se ele me chama
ou me devolve.

— J. Kasra © 2026 — Todos os direitos reservados


𝐄𝐍𝐓𝐑𝐄 𝐎 𝐒𝐈𝐋𝐄̂𝐍𝐂𝐈𝐎 𝐄 𝐎 𝐁𝐀𝐑𝐔𝐋𝐇𝐎

 



𝐄𝐍𝐓𝐑𝐄 𝐎 𝐒𝐈𝐋𝐄̂𝐍𝐂𝐈𝐎 𝐄 𝐎 𝐁𝐀𝐑𝐔𝐋𝐇𝐎

A solidão não é ausência —
é um quarto aceso por dentro.

O silêncio não cala,
ele sussurra nomes que escondo na boca.
Há um mar imóvel no meu peito
e, ainda assim,
ondas quebram sem fazer som.

O barulho vem de fora
como chuva em telhas alheias —
mas o verdadeiro estrondo
é o que cresce lento
no interior das coisas não ditas.

Sou casa habitada por ecos.
E no centro do meu próprio ruído,
há um silêncio
que me observa.

— J. Kasra


2/20/26

O Tempo e o Abraço

 



O Tempo e o Abraço

O tempo dobra-se sobre si, silencioso,
como um rio que guarda a memória das pedras.
Cada instante se curva,
enquanto o ar carrega a densidade das horas.

O abraço é sombra alongada,
um eco que não se quebra,
um fio que une o que o mundo dispersa,
uma cadência que atravessa o impossível.

As horas se vestem de cor e silêncio,
e a luz hesita entre os espaços que respiram.
O que foi não se apaga,
o que será se dobra em sombras e claridade.

Tudo é simultâneo: instante, abismo, memória,
e no entrelace do tempo,
o toque se mantém oculto,
preso apenas à música das coisas que passam.

J. Kasra


Névoa dos Sonhos

 




Névoa dos Sonhos

A névoa desliza entre os postes como fumaça de vidro,
arrastando ecos que se quebram antes de tocar o chão.
Sombras percorrem o espaço entre luz e silêncio,
tecendo formas que escapam à compreensão.

O vento move-se como pensamento antigo,
sobre folhas que tremem em ritmos impossíveis.
Os sonhos emergem como espectros do horizonte,
fundindo-se à escuridão sem fronteiras.

As lâmpadas cintilam como partículas de memória,
mas nenhuma ilumina o que pulsa na penumbra.
O ar vibra com figuras que surgem apenas em passagem,
onde o real e o imaginário se confundem sem aviso.

No coração da noite, tudo é movimento contido,
e a névoa é o fio que une mundos invisíveis,
onde cada instante suspende-se e se repete,
uma dança silenciosa entre sonho e sombra.

Passamos pela noite como quem atravessa um espelho,
e despertamos na luz que não pertence ao tempo.

J. Kasra

Espelho de Nós

 



Espelho de Nós

O espelho suspende o tempo,
como água que reflete o mundo inteiro.
Reflexos se entrelaçam sem limites,
corpos que se descobrem e se repetem.

Não há bordas, apenas espaço contínuo,
um portal que transporta sem mover,
onde o olhar atravessa a superfície
e encontra ecos inteiros, desconhecidos.

Cada gesto é simultâneo e antigo,
cada sombra se torna densidade do outro.
O reflexo se alonga, se fragmenta,
e ainda assim nos mantém inteiros.

Entre luz e vidro,
o que somos se revela sem toque,
hipnótico e profundo,
como se cada movimento fosse descoberta.

J. Kasra

2/09/26

Liturgia da Distância

 


Liturgia da Distância

A distância entre nós
não é ausência —
é tensão.

Um campo invisível
onde nossos desejos se inclinam
antes mesmo de se reconhecerem.

Te sinto no intervalo do silêncio,
no espaço exato
entre o pensamento e o arrepio.
Ali, tua presença se forma
como um sopro quente
atravessando minha nuca.

Estamos longe,
mas algo em nós permanece nu.

Despojados de tempo,
de lógica,
de defesa.

Teu nome percorre minha pele
sem tocá-la,
e ainda assim a incendeia.

Meu corpo aprende tua forma
sem jamais tê-la conhecido.
Decora teus gestos
pelos sinais da ausência,
como quem lê um livro
escrito por dentro.

Há noites em que quase te toco.
Não com as mãos —
mas com essa fome lenta
que só a alma conhece.

Nos encontramos no invisível:
no desejo contido,
na respiração suspensa,
na oração silenciosa
do que ainda não pode ser.

E assim permanecemos —
separados na carne,
unidos no pulso secreto
que conduz nossos sonhos.

A distância nos refina.
Transforma urgência em rito.
Transforma saudade
em linguagem sagrada.

Porque certos amores
não pedem presença.

Pedem eternidade.

— J. Kasra

Fragmento de uma obra em construção.

2/06/26

Ausência que Sangra Devagar – J. Kasra


 

A Ausência que Sangra Devagar – J. Kasra

Categoria: Poemas da Sombra
Tags: Poema Gótico, Ausência, Dor, Amor Sombrio, Sombra, J. Kasra

Depois de ti,
a noite aprendeu meu nome.

Tua ausência não é silêncio —
é um campo coberto de névoa
onde algo ainda se move
sob a terra congelada.

Escuto teu passo
entre as lápides
quando o mundo dorme.

Há sangue na memória,
não nas mãos.
Ele corre lento,
misturado ao vinho,
conservando o que deveria apodrecer.

Sinto saudade
como se sente febre:
sem escolha,
sem remédio,
sem promessa de amanhecer.

Se um dia voltares,
não será à luz.
Será na hora morta,
quando as sombras se alongam
e o amor —
esse animal noturno —
reconhece
quem ainda lhe pertence.

Este poema é um fragmento de um dos meus livros.

Teia de Vinho e Silêncio – J. Kasra


 

Teia de Vinho e Silêncio – J. Kasra

Categoria: Poemas da Sombra
Tags: Poema Gótico, Amor Sombrio, Desejo, Ausência, Sombra, J. Kasra

Nunca nos vimos
e, no entanto,
teu nome pesa
como pedra molhada no peito da noite.

Há sangue no pensamento.
Não corre —
insiste.

Bebo vinho
e o vinho me bebe de volta,
escurecendo a memória
até que tua falta
ganhe forma.

Tu sofres em mim
como uma sombra aprende um corpo.
Eu sofro em ti
como a noite aprende o frio.
Não nos dizemos,
mas sabemos:
a ausência nos visita
com o mesmo rosto.

As teias vibram.
Algo nelas ainda respira.
Não nos prendem —
nos mantêm suspensos
entre o desejo e a queda.

A névoa entra pelos olhos,
enche os pulmões de saudade.
Penso-te
e dói como um amor
que não encontrou onde pousar.

Não houve carne.
Houve incêndio contido.
Houve esse amor
que se esconde
para não morrer.

Se te aproximo, sangro.
Se te afasto, sangras.
Assim permanecemos:
dois escuros
aprendendo a arder
sem luz.

Ainda sofremos.
Porque o que não se vive
não termina.
Apenas se torna eterno
no lugar mais cruel:
o imaginário.

E ali,
entre vinho, sombra e silêncio,
continuamos
— profundamente —
a nos faltar.

Este poema é um fragmento de um dos meus livros.

THE MINERALOGY OF MASKS

  THE MINERALOGY OF MASKS Appearance learned early the art of polishing its own stone. Essence never needed such a theater. It simply is, ev...