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4/26/26

NA CAPELA ONDE O DESEJO APRENDE A PENSAR

 



NA CAPELA ONDE O DESEJO APRENDE A PENSAR

Na capela abandonada,
o silêncio não é silêncio —
é um corpo pensando devagar dentro de mim.

Eu não entro aqui.
Eu sou convocado.

Como se algo antigo me reconhecesse antes do meu próprio nome
e decidisse que eu já não posso mais me pertencer.

Os vitrais quebrados não deixam a luz passar.
Eles a ferem.
Transformam o mundo em memória em carne viva.

E então ela aparece.

Mas não aparece — isso seria simples demais.
Ela acontece.

Como um pensamento que se recusa a terminar.
Como uma ideia que aprendeu a ter pele.

O vermelho não é roupa.
É linguagem sem tradução dentro do sangue.

E eu reconheço isso antes de compreender.
Reconheço com algo mais antigo que a consciência —
um tipo de memória que não pertence a mim.

A vela na mão dela não ilumina.
Ela julga.

Cada gota de cera não cai —
ela desce por dentro da minha percepção
como se o tempo estivesse perdendo o direito de ser linear.

O ar fica mais próximo.
Próximo demais para ser inocente.

Os limites entre olhar e ser olhado começam a falhar.
E essa falha é o começo de tudo.

Não há distância entre nós.
Só uma tensão que aprendeu a respirar sozinha.

E o mais inquietante:
não sei mais quem está criando quem.

Porque há momentos em que sinto
que ela me pensa.

Não me vê — me pensa.

E isso é mais íntimo do que qualquer toque jamais seria.

As sombras se aproximam como se tivessem lembrado de nós.
Como se já nos conhecessem antes de qualquer forma.

E o altar não observa.
Ele participa.

E eu entendo, ou sou desfeito nessa compreensão:

não existe encontro aqui.
Existe reconhecimento.

Algo que sempre esteve acontecendo
antes mesmo de existir um “antes”.

E o desejo — esse nome pequeno demais para o que é —
não pede nada.

Ele ocupa.

Ele pensa através de nós
até que já não reste diferença entre pensamento e corpo,
entre presença e colapso.

E então percebo:

talvez nunca tenha sido uma capela.

Talvez tenha sido sempre uma mente
tentando me lembrar dela mesma.


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