9/21/26

THE ECLIPSE OF IMPULSE


 THE ECLIPSE OF IMPULSE

Some mistake ice for the absence of fire.

But even the stars know silence
before setting the universe ablaze.

Coldness observes.
Self-control chooses.

Between the two lies an abyss
where desire learns not to kneel.

There are storms that need no thunder.
There are stars that die in silence
and still cross millions of years
dressed in light.

The human being who masters their own fire
does not cease to burn.

They become a constellation.

They learn to contemplate impulse
as one watches an eclipse:
without trying to stop the shadow,
without allowing it to become night.

True strength does not shout.
It does not chase what it desires.
It does not beg the universe for a different orbit.

It remains.

And while everything around it falls apart,
it keeps within itself
a small, untouched sun.

Coldness may be distance.

Self-control is freedom.

There is a deeper form of power:
to feel the entire universe collapsing inside the chest
and still choose
where to place the next step.

In the end, it is not the one who stops feeling who prevails.

It is the one who feels the abyss
and learns to walk across it
without falling.

J. Kasra — All rights reserved


THE ABYSS BETWEEN THE VEILS


 

THE ABYSS BETWEEN THE VEILS

Human beings do not seek the truth.
They seek a truth they can bear.

There are mysteries that ripen like grapes in the dark,
holding within their skin what the mouth still does not know how to name.

There are truths that are like a walnut:
hard on the outside,
bitter when finally opened.

And still we insist on breaking them,
as though knowing were always a form of liberation.

It is not.

There are forms of knowledge that burn like fire,
and silences that drown more deeply than water.

Human beings call destiny what they desired,
love what they possessed,
prudence what they feared,
and wisdom what they learned to endure.

Truth watches in silence.

It promises no salvation.
It offers no meaning.
It does not caress our wounds.

It simply remains.

Mystery still allows desire.
It leaves a door half-open,
a shadow upon the skin,
a dark wine upon the lips,
a question breathing between two people.

Truth frightens us less by what it reveals
than by what it destroys.

It destroys what we invented in order to keep desiring.

The fire ends,
the water grows still,
the grapes rot,
and even the walnut shell breaks between our fingers.

Then what remains is what we never wanted to find.

Ourselves.

Without mystery.
Without excuses.
Without the beauty of illusions.

And in that instant, we understand the greatest cruelty:

the abyss was never hidden.

We were the ones who spent our lives
calling mystery what we could not bear to call the truth.

J. Kasra — All rights reserved

9/13/26

THE NIGHT KNOWS


 

THE NIGHT KNOWS

The night kicks down the door and finds me standing, waiting,

hands stained with what I swallowed whole just to seem normal.

It turns off the light in the glass and leaves only the pen

cutting the silence in half — one half bleeds, the other is born.

Writing is tearing out with a fingernail what has rotted inside,

is letting the raw word be born larger than the lies I heard all day,

is feeling silence turn to bone, turn to blood, turn to mouth.

There is a pact none of us ever signed, only bled:

it lends me the darkness, I return it in flesh of words;

it hides the monster, I have the courage to devour it with its name.

The pen pierces the paper and there is no more pretending —

the word tears apart, the sentence skins, the comma is a blade.

I bring out what others only whisper with their eyes closed.

Dawn comes. The night retreats like a murderer who was never at the scene.

But the written shadow never returns to the dark.

Once written, no shadow ever becomes silence again.

J. KASRA — All rights reserved.

MANIFESTO CONTRA A IGNORÂNCIA VESTIDA DE MORAL


 MANIFESTO CONTRA A IGNORÂNCIA VESTIDA DE MORAL

Existe um momento em que o silêncio deixa de ser elegância e passa a ser conivência.

Há uma diferença entre estabelecer limites e impor a própria limitação aos outros.

Há uma diferença entre criticar uma obra e condená-la sem compreendê-la.

Há uma diferença entre não gostar de literatura e acreditar que o próprio gosto deveria determinar até onde a literatura pode existir.

Essa diferença parece óbvia.

Não é.

Todos os dias, palavras são julgadas antes de serem lidas. Imagens são condenadas antes de serem interpretadas. Obras são reduzidas a uma frase, uma palavra, uma sugestão, um corpo, um desejo, uma impressão superficial.

E então vem o carimbo.

Inadequado. Vulgar. Erótico. Excessivo. Provocativo.

O texto desaparece.

A ignorância permanece.

E é aqui que este manifesto começa.

Não para pedir licença.

Não para pedir aprovação.

Não para ocupar o lugar de vítima.

Mas para colocar cada coisa em seu devido lugar:

autoridade sem conhecimento é apenas poder mal utilizado.

Existe uma doença antiga no mundo da literatura: a necessidade de reduzir aquilo que não se consegue compreender.

Ela aparece com diferentes nomes.

Às vezes veste o uniforme da censura. Às vezes se apresenta como crítica. Às vezes assina pareceres. Às vezes ocupa uma cadeira editorial. Às vezes administra uma comunidade. Às vezes se esconde atrás de uma curadoria sofisticada.

A embalagem muda.

A pobreza intelectual permanece.

E é necessário dizer isso sem a delicadeza artificial que tantos esperam de um escritor:

nem todo aquele que julga uma obra possui competência para julgá-la.

Um cargo não produz repertório.

Uma função não produz sensibilidade.

Um diploma não produz talento.

Uma assinatura editorial não produz inteligência.

Um espaço de destaque não produz autoridade.

Um currículo, por maior que seja, não transforma uma leitura equivocada em verdade.

Literatura exige muito mais.

Exige conhecimento da linguagem, domínio técnico, repertório histórico, consciência estética, compreensão de gênero, percepção simbólica e, acima de tudo, capacidade de interpretar aquilo que existe além da superfície.

Sem isso, crítica vira opinião com gravata.

Curadoria vira gosto pessoal fantasiado de critério.

Censura vira incompetência institucionalizada.

E o julgamento literário se transforma num tribunal onde a obra é condenada antes de ser compreendida.

Uma metáfora corporal é confundida com vulgaridade.

Uma atmosfera sensual é reduzida a pornografia.

Uma provocação estética é tratada como escândalo.

Uma construção psicológica é julgada pela moral particular de quem lê.

Uma imagem é condenada sem contexto.

Uma palavra é arrancada do parágrafo e transformada em prova contra o próprio texto.

Isso não é leitura.

É mutilação interpretativa.

O leitor preguiçoso lê a superfície.

O crítico medíocre procura confirmar o próprio preconceito.

O censor procura aquilo que pode condenar.

O editor incompetente procura aquilo que pode vender sem risco.

Todos cometem o mesmo erro:

confundem a própria limitação com o limite da obra.

É assim que a literatura vai sendo domesticada.

Cortam a aresta.

Suavizam o desejo.

Neutralizam o conflito.

Explicam a metáfora.

Corrigem a provocação.

Transformam o estranho em aceitável.

O incômodo em produto.

A linguagem em fórmula.

E depois chamam isso de evolução.

Não.

Isso é assepsia.

É a tentativa de transformar literatura em mercadoria emocionalmente esterilizada.

Uma obra não existe para ser confortável.

Não existe para obedecer ao gosto médio.

Não existe para passar ilesa por todos os filtros morais, comerciais e intelectuais.

Literatura existe também para atravessar aquilo que o leitor preferia não sentir.

É por isso que certos textos incomodam.

Não pela pobreza.

Pela ausência de domesticação.

Não pela vulgaridade.

Pela coragem de tocar no corpo, no desejo, na morte, na solidão, na violência, na obsessão, na culpa, na loucura e nas zonas que a sociedade prefere manter cuidadosamente cobertas.

O escritor sério sabe disso.

Ele estuda.

Lê.

Observa.

Reescreve.

Corta.

Reconstrói.

Fracassa.

Retorna.

Aprofunda.

E coloca dentro da obra aquilo que passou anos acumulando dentro de si e no mundo ao redor.

Depois chega alguém que leu três parágrafos e decide explicar ao autor o que ele quis dizer.

É aí que a comédia se transforma em tragédia.

Existe uma diferença monumental entre não gostar e não compreender.

A primeira é liberdade.

A segunda exige humildade.

E humildade desaparece quando a ignorância recebe autoridade.

Há críticos que não analisam: classificam.

Há editores que não leem: padronizam.

Há curadores que não selecionam: eliminam tudo aquilo que escapa ao próprio repertório.

Há administradores que não moderam: policiam.

Há leitores que não interpretam: reagem.

E há um mercado inteiro disposto a transformar essa pobreza em método.

O resultado é previsível:

Obras que deveriam provocar são suavizadas.

Autores que deveriam arriscar são domesticados.

Vozes que deveriam ser singulares são empurradas para dentro da mesma forma industrial.

E quando alguém se recusa a entrar nessa linha de montagem, surgem as etiquetas.

Difícil demais.

Pesado demais.

Sensual demais.

Estranho demais.

Provocativo demais.

Comercialmente arriscado.

Inadequado.

Incompreensível.

A palavra muda.

A intenção permanece:

faça caber.

Mas literatura não é peça de encaixe.

E escritor não é funcionário da mediocridade coletiva.

Não escrevo para agradar quem precisa que toda obra venha acompanhada de manual de instruções.

Não escrevo para satisfazer a preguiça interpretativa de quem confunde primeira impressão com análise.

Não escrevo para que críticos encontrem apenas aquilo que já conhecem.

Não escrevo para que editores transformem minha voz em produto de prateleira.

Não escrevo para que curadores decidam até onde minha imaginação pode caminhar.

E não escrevo para receber autorização intelectual de ninguém.

Escrevo sabendo exatamente o peso que uma palavra pode carregar.

E assumo esse peso.

Com responsabilidade.

Com técnica.

Com consciência.

Com coragem.

O escritor que precisa mutilar a própria voz para ser aceito já perdeu alguma coisa muito antes de publicar o primeiro livro.

Perdeu a própria voz.

E existe uma verdade que incomoda:

não existe literatura realmente viva sem algum grau de perigo.

Perigo para a comodidade.

Perigo para a moral conveniente.

Perigo para o mercado.

Perigo para o leitor preguiçoso.

Perigo para o crítico acostumado a julgar apenas aquilo que consegue dominar.

Perigo para o editor que acredita que toda obra precisa pedir permissão para existir.

Uma literatura que nunca incomoda ninguém provavelmente não está sendo profunda o bastante.

E uma crítica que nunca enfrenta a própria ignorância não está criticando literatura.

Está defendendo os próprios limites.

No fim, podem recusar.

Podem censurar.

Podem classificar.

Podem rotular.

Podem diminuir.

Podem excluir.

Podem transformar a própria incapacidade de compreender em sentença definitiva.

Mas existe uma coisa que nenhum cargo, nenhum conselho editorial, nenhum grupo, nenhum crítico, nenhum mercado e nenhuma patrulha moral consegue fazer:

dar profundidade àquilo que nasceu raso.

Podem controlar portas.

Não controlam a literatura.

Podem controlar espaços.

Não controlam a linguagem.

Podem decidir quem entra.

Não decidem quem permanece.

A obra séria não precisa da aprovação de quem tem medo dela.

Precisa sobreviver ao tempo.

E o tempo possui uma crueldade que nenhum censor conhece:

ele arranca os títulos, os cargos, os crachás e as máscaras — e deixa apenas aquilo que realmente tinha valor.

No fim, ninguém será lembrado pelo botão que apertou.

Será lembrado pelo que teve coragem de criar, compreender ou defender.

O resto?

É apenas ruído tentando se passar por autoridade.

J. KASRA — Todos os direitos reservados

THE ECLIPSE OF IMPULSE

 THE ECLIPSE OF IMPULSE Some mistake ice for the absence of fire. But even the stars know silence before setting the universe ablaze. Coldne...