2/28/26

𝐄 𝐒𝐄 π•πŽπ‚π„̂ π…πŽπ’π’π„ π”πŒπ€ ππ”πˆπ‹π‹?

 


𝐄 𝐒𝐄 π•πŽπ‚π„̂ π…πŽπ’π’π„ π”πŒπ€ ππ”πˆπ‹π‹?

Primeiro, entenda uma coisa:
eu nΓ£o trabalho sozinha.

Existe um triΓ’ngulo aqui.
E Γ© mais intenso que muito romance mal resolvido.

Sou a Quill.
Elegante. Afetada. Levemente dramΓ‘tica.

A Tinta?
Impulsiva. Emocional. Vive se derramando.

E o Papel…
ah, o Papel acha que Γ© vΓ­tima.

“Eu recebo tudo.”
“Eu sou rabiscado.”
“Eu sou amassado.”

Querido, vocΓͺ recebe
porque eu levo.

Γ‰ logΓ­stica emocional.

Mergulham-me na Tinta
e lΓ‘ vai ela, toda animada:

— “Vamos escrever um poema!”

Eu saio carregada
com gotΓ­culas penduradas na ponta
como se fossem pensamentos ainda indecisos.

EntΓ£o encosto no Papel.

E comeΓ§a o espetΓ‘culo.

A Tinta se distribui em letras,
traΓ§os,
curvas sensuais,
riscos nervosos
e aqueles rabiscos existenciais
que ninguΓ©m entende
mas todo mundo finge que Γ© arte.

Cada gotΓ­cula se transforma.

Um pingo vira vΓ­rgula.
Dois respingos viram drama.
Um traΓ§o longo vira “para sempre”
— que, convenhamos,
raramente dura.

A Tinta vai se acabando aos poucos.

Ela comeΓ§a intensa, escura, decidida.
Depois vai ficando leve, quase transparente.

“Estou no fim”, ela sussurra.

E eu?
Tenho que fingir firmeza.

Enquanto isso, o Papel recebe tudo.

Poemas apaixonados.
Listas de mercado.
ConfissΓ΅es Γ s trΓͺs da manhΓ£.
E aquele “nΓ£o me liga mais”
escrito com coragem de cinco segundos.

Γ€s vezes ele Γ© dobrado.
Γ€s vezes amassado dramaticamente.
Γ€s vezes enviado pelo mundo
como se carregasse segredo de Estado.

E sempre diz:
“Eu guardo memΓ³rias.”

Sim, guarda.
Mas quem as trouxe atΓ© vocΓͺ?

Eu.

E quem sangrou atΓ© virar palavra?

A Tinta.

Somos um trio inseparΓ‘vel.

Eu conduzo.
A Tinta sente.
O Papel suporta.

Juntos transformamos dedos inquietos
em filΓ³sofos improvisados.

Porque no fundo,
nΓ£o escrevemos apenas palavras.

Escrevemos surtos organizados.
Saudades disfarΓ§adas.
Amores que acham que sΓ£o eternos.

E quando a Tinta finalmente acaba
e eu fico leve, quase inΓΊtil,

o Papel ainda se gaba:

“Eu tenho tudo registrado.”

Tem, meu bem.

Mas sem a Quill
vocΓͺ seria apenas
uma folha em branco
esperando coragem.

— Uma Quill experiente,
sobrevivente de muitos poetas

© 2026 J. Kasra — Todos os direitos reservados.

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