7/07/26

A SOMBRA QUE ESPIA


 

A SOMBRA QUE ESPIA

Há quem nunca tenha aprendido a construir.

Por isso, passa a vida contando os tijolos da casa alheia.

Habita as frestas, alimenta-se das janelas, coleciona passos que não deu, vitórias que não conquistou e sorrisos que jamais lhe pertenceram. Chama de curiosidade a própria inquietação; chama de opinião o vazio que ecoa dentro de si.

A inveja possui uma fome mineral.

Rói por dentro como ferrugem na mais antiga das espadas. Não sangra a vítima. Corrói apenas quem a carrega.

A falsidade veste o perfume da gentileza.

Sorri com os lábios enquanto afia o silêncio. Aplaude diante dos olhos e semeia espinhos assim que encontra as costas.

Há almas tão vazias que sobrevivem apenas espionando a luz dos outros, como sombras que confundem a própria escuridão com inteligência.

Mas nenhuma sombra aprende a ser sol.

Nenhum espelho roubado devolve um rosto digno.

Quem escolhe viver à espreita acaba condenado a assistir à vida passar pela janela, enquanto o tempo, indiferente e implacável, sepulta o próprio nome sob o peso daquilo que nunca teve coragem de ser.

J. Kasra — Todos os direitos reservados.


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