Quando a Névoa se Abriu
J. Kasra
Por eras caminhei teu nome
sem sabê-lo pronunciar.
Ele ardia em mim como um salmo antigo,
escrito antes do corpo,
antes da carne aprender a desejar.
Havia uma névoa —
espessa, ritualística,
feita de silêncios, medos e promessas não cumpridas.
Ela nos cobria os olhos
para que o reconhecimento fosse lento,
doloroso,
inevitável.
Te busquei nos sonhos que não pedi,
nos corpos errados,
nas noites em que o coração rezava
sem altar.
Tu me buscaste no escuro,
na febre do acaso,
na saudade de algo que nunca soubeste nomear.
Então o tempo cedeu.
A névoa se partiu como véu de sacerdotisa
diante do fogo.
E ali estavas —
inteiro, antigo, reconhecível
como um destino que retorna.
Nossos olhos se tocaram
antes que as mãos ousassem.
As almas, famintas, se abraçaram
com a intimidade de quem já sangrou junto
em outras vidas.
Não foi encontro:
foi lembrança.
Não foi paixão:
foi invocação.
Teu corpo aprendeu o caminho do meu
como quem volta para casa
após atravessar séculos de exílio.
E eu, que sempre fui abismo,
me tornei portal.
Se nos perdermos de novo,
que seja apenas para que a névoa exista.
Pois sabemos —
ela sempre se desfaz
quando duas almas que se procuram
finalmente se encontram.
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