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Escrevemo-nos por anos.
Tinta sobre papel,
como se cada carta fosse um pedaΓ§o do corpo
enviado pelo correio do mundo.
Houve atrasos.
Invernos inteiros entre uma resposta e outra.
Navios levando promessas pelo mar
como quem carrega pΓ³lvora.
Aprendemos a desejar na ausΓͺncia.
A tocar pela palavra.
A arder em silΓͺncio
sob o peso das horas que nΓ£o passavam.
E entΓ£o —
o encontro.
Sem envelope.
Sem selo.
Sem distΓ’ncia que nos salvasse.
Te vi atravessar a estaΓ§Γ£o
com o mesmo olhar que atravessou minhas madrugadas.
O ar perdeu compostura.
Minhas mΓ£os, acostumadas Γ escrita,
nΓ£o sabiam o que fazer com a tua presenΓ§a.
NΓ£o era apenas paixΓ£o.
Era o acΓΊmulo de todas as cartas nΓ£o rasgadas,
de todas as frases interrompidas,
de todas as noites em que teu nome
era a ΓΊnica coisa acesa no quarto.
Teu mundo vinha contigo —
as ruas onde andaste sem mim,
as escolhas que te moldaram.
O meu tambΓ©m —
carregado de silΓͺncios
e promessas escritas com febre.
Mas quando nossos olhos se tocaram,
nΓ£o houve mais passado organizado em gavetas.
Houve choque.
Como se dois continentes
decidissem colidir de propΓ³sito.
E naquele instante —
nΓ£o Γ©ramos mais remetente e destinatΓ‘rio.
Γramos incΓͺndio.
— J. Kasra
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