2/09/26

Liturgia da Distância

 


Liturgia da Distância

A distância entre nós
não é ausência —
é tensão.

Um campo invisível
onde nossos desejos se inclinam
antes mesmo de se reconhecerem.

Te sinto no intervalo do silêncio,
no espaço exato
entre o pensamento e o arrepio.
Ali, tua presença se forma
como um sopro quente
atravessando minha nuca.

Estamos longe,
mas algo em nós permanece nu.

Despojados de tempo,
de lógica,
de defesa.

Teu nome percorre minha pele
sem tocá-la,
e ainda assim a incendeia.

Meu corpo aprende tua forma
sem jamais tê-la conhecido.
Decora teus gestos
pelos sinais da ausência,
como quem lê um livro
escrito por dentro.

Há noites em que quase te toco.
Não com as mãos —
mas com essa fome lenta
que só a alma conhece.

Nos encontramos no invisível:
no desejo contido,
na respiração suspensa,
na oração silenciosa
do que ainda não pode ser.

E assim permanecemos —
separados na carne,
unidos no pulso secreto
que conduz nossos sonhos.

A distância nos refina.
Transforma urgência em rito.
Transforma saudade
em linguagem sagrada.

Porque certos amores
não pedem presença.

Pedem eternidade.

— J. Kasra

Fragmento de uma obra em construção.

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