Teia de Vinho e Silêncio – J. Kasra
Categoria: Poemas da Sombra
Tags: Poema Gótico, Amor Sombrio, Desejo, Ausência, Sombra, J. Kasra
Nunca nos vimos
e, no entanto,
teu nome pesa
como pedra molhada no peito da noite.
Há sangue no pensamento.
Não corre —
insiste.
Bebo vinho
e o vinho me bebe de volta,
escurecendo a memória
até que tua falta
ganhe forma.
Tu sofres em mim
como uma sombra aprende um corpo.
Eu sofro em ti
como a noite aprende o frio.
Não nos dizemos,
mas sabemos:
a ausência nos visita
com o mesmo rosto.
As teias vibram.
Algo nelas ainda respira.
Não nos prendem —
nos mantêm suspensos
entre o desejo e a queda.
A névoa entra pelos olhos,
enche os pulmões de saudade.
Penso-te
e dói como um amor
que não encontrou onde pousar.
Não houve carne.
Houve incêndio contido.
Houve esse amor
que se esconde
para não morrer.
Se te aproximo, sangro.
Se te afasto, sangras.
Assim permanecemos:
dois escuros
aprendendo a arder
sem luz.
Ainda sofremos.
Porque o que não se vive
não termina.
Apenas se torna eterno
no lugar mais cruel:
o imaginário.
E ali,
entre vinho, sombra e silêncio,
continuamos
— profundamente —
a nos faltar.
Este poema é um fragmento de um dos meus livros.
