3/26/26

PELE × ABISMO


 

PELE × ABISMO

Alguns confundem pele
com profundidade.

Encostam corpos
como quem tateia uma porta,
imaginando que o mistério
se revela
ao primeiro toque.

Mas pele
é apenas a fronteira.

Um território sensível,
sim —
quente, vibrante, elétrico.
Mas ainda assim
fronteira.

O abismo
começa depois.

O abismo é quando o desejo
abandona a superfície
e começa a cavar.

Quando um olhar
não apenas percorre o corpo,
mas desmonta defesas
como quem desfolha
um segredo antigo.

Pele é convite.
Abismo é vertigem.
Pele seduz.
Abismo desarma.

Há quem viva a vida inteira
colecionando peles —
beijos bem executados,
corpos que se encontram
como frases bem escritas.

Bonitos.
Impecáveis.
Esquecíveis.

Porque a pele
ainda permite fuga.
O abismo não.

No abismo
não há coreografia.
Não há elegância.
Não há estratégia.

Há apenas
a queda lenta
de duas consciências
que se reconhecem
antes mesmo
de compreender o próprio nome.

E quem já tocou um abismo
sabe:
não se volta à superfície
sem carregar nos olhos
alguma forma de infinito.

Porque certas presenças
não pedem o corpo.
Pedem a alma
como território.

E quando isso acontece
já não se trata de desejo.

Trata-se de destino.

J. Kasra
Todos os direitos reservados

3/24/26

SAUDADE DO INVISÍVEL


 

SAUDADE DO INVISÍVEL

Há momentos em que o peito aperta,
como se guardasse um fogo secreto,
um perfume que não conheci,
uma boca que não toquei,
mas que minha carne implora.

Saudade de um corpo que nunca vi,
de um olhar que me consome,
como se cada sombra, cada vento
soubesse os segredos que ardem em mim.

Desejo que escorre pelos meus ossos,
que rasga o silêncio da noite
e dança em meus lábios,
em um êxtase que arde,
e que o coração reconhece antes da razão.

E sinto-o em cada batida, em cada suspiro,
como se a alma, antes de nascer,
já soubesse do gosto da paixão
que queima antes de tocar.


J. Kasra
© Todos os direitos reservados

O QUE CABE NUM ABRAÇO


 

O QUE CABE NUM ABRAÇO

Há muitos tipos de abraço —
nenhum se repete...

Cada um traz sua própria anatomia,
sua temperatura exata,
sua duração inevitável.

Há o abraço trepadeira,
que escala a pele com fome antiga
e se enraíza onde toca.

Há o abraço calmo,
quase silêncio,
onde o tempo se curva
e desaprende a passar.

Há o abraço mensagem,
breve, contido,
mas carregado de tudo
o que a boca não suportou dizer.

Há o abraço à distância —
aquele que não encosta,
mas atravessa,
que não toca o corpo,
mas incendeia a ausência
como se a pele soubesse esperar.

Há os que permanecem,
mesmo depois do corpo partir,
como um calor que a pele
se recusa a esquecer.

Cada abraço é irrepetível,
um código secreto
que só o coração decifra.

E então há a falta.

Esse espaço exato, cruel,
onde um abraço deveria existir
e não existe.

É ali que se revela —
o quanto um abraço permanece
mesmo quando já acabou.


J. Kasra
© Todos os direitos reservados

3/17/26

AS NUANCES DA VIDA


 

AS NUANCES DA VIDA 

Um sussurro entre sombras e luz…

A vida não fala em linhas retas,
sussurra em curvas,
em gestos quase invisíveis
entre um suspiro e outro.

Há dias em que o mundo pesa
como uma noite sem estrelas,
e outros em que a alma explode
como vinho derramado na luz.

Amamos assim —
sem mapas,
sem prudência,
como quem mergulha no mar
sabendo que o fundo
é também um mistério.

Porque viver
é aceitar a vertigem das cores,
o delírio das sombras,
o caos doce das emoções
que ninguém consegue domesticar.

E no meio dessa loucura luminosa,
descobrimos que a vida
não quer ser entendida…
quer apenas
ser sentida.

J. Kasra
© Todos os direitos reservados

𝐅𝐎𝐌𝐄 𝐄𝐓𝐄𝐑𝐍𝐀



𝐅𝐎𝐌𝐄 𝐄𝐓𝐄𝐑𝐍𝐀

Sob a lua que nunca se apaga,
nossos lábios se encontraram
como duas chamas que recusam o fim.

Teu gosto é vinho profundo —
antigo, denso, inevitável.
Escorria lento pelo canto da tua boca
como se a noite precisasse de testemunha.

Quando te beijei,
não houve mundo,
não houve chão,
não houve castelo para onde voltar.

Houve fome.

Uma fome antiga,
anterior ao sangue,
anterior ao nome que carregamos.

Teus lábios abriram em mim
um abismo luminoso —
e eu mergulhei.

Não era desejo apenas.
Era reconhecimento.
Era a alma inclinando-se
para devorar a própria eternidade.

As velas ardiam inquietas,
o castelo respirava pedra e sombra,
mas nada era mais vasto
que o espaço entre nossas bocas
que insistia em desaparecer.

Beijar-te
foi aceitar que não há retorno.

Que há amores
que não querem repouso,
não querem manhã,
não querem salvação.

Querem durar.

E duram
na fome que não se sacia,
no vinho que nunca seca,
no beijo que não termina
porque nunca começou —

apenas sempre foi.

— J. Kasra © 2026 — Todos os direitos reservados

BRINDAR À ESSÊNCIA

 


BRINDAR À ESSÊNCIA 

“Me chamam de louco…”

Me chamam de louco
por buscar quem sabe que se encontra em mim,
por respirar versos
condensados de desejos.

Chamam-me de louco
por render meu tributo apaixonado
a alguém que talvez
eu não conheça nesta existência…
mas sinto que existe.

Meu coração me guia
por coordenadas exatas,
como se a alma soubesse
o caminho antes dos passos,
com cheiro de mar
e pétalas de sal.

E então brindo,
à luz da lua,
ao verdejante caminho por vir,
à tua essência que me chama —
talvez
sem saber.

 J. Kasra
© Todos os direitos reservados


3/03/26

𝐎 𝐁𝐄𝐈𝐉𝐎 𝐐𝐔𝐄 𝐍𝐀̃𝐎 𝐓𝐄𝐑𝐌𝐈𝐍𝐀


 

𝐎 𝐁𝐄𝐈𝐉𝐎 𝐐𝐔𝐄 𝐍𝐀̃𝐎 𝐓𝐄𝐑𝐌𝐈𝐍𝐀

Teus lábios nos meus —
e o mundo perdeu o direito de existir.

Não houve promessa.
Houve fome.

Fome antiga,
mais velha que o sangue,
mais funda que o nome que carrego.

Teu gosto era vinho escuro
abrindo-se na minha boca
como um feitiço que nunca pediu perdão.

Quando te beijei,
não quis ternura.
Quis eternidade.

Eternidade como incêndio.
Como vertigem.
Como duas almas se rasgando
para caber na mesma chama.

Não voltamos.
Não havia casa.
Não havia depois.

Havia apenas o beijo —
lento, profundo,
um abismo sugando o ar
até que respirar fosse desnecessário.

Se me perguntarem o que restou,
direi:

restou a fome.

E ela não termina.

— J. Kasra © 2026 — Todos os direitos reservados

THE MINERALOGY OF MASKS

  THE MINERALOGY OF MASKS Appearance learned early the art of polishing its own stone. Essence never needed such a theater. It simply is, ev...