4/20/26

CARNE E RAIZ


 

CARNE E RAIZ

Há momentos em que a noite nos chama pelo nome
não o nome que herdamos, mas aquele que esquecemos de lembrar.

E vamos — como quem atende a um sussurro antigo,
um canto de sereia que não vem do mar, mas de dentro,
de um abismo com raízes.

A floresta não se abre — ela nos engole.

Flores com dentes, plantas que respiram desejo e o devoram,
espinhos que não ferem a pele, mas rasgam as certezas,
arrancam pedaços de quem fomos com uma delicadeza cruel.

E ainda assim, seguimos.

Pisamos um chão de maçãs secas,
memórias trituradas sob os pés,
um doce apodrecido que insiste em perfumar o caminho.

Cada passo estala como um osso antigo,
cada avanço é uma pequena morte consentida.

Há lama — territórios movediços onde o pensamento afunda,
onde a dúvida tem peso,
onde o futuro não passa de um animal invisível respirando atrás da nuca.

E seguimos.

Porque algo pulsa — um coração que não é nosso,
ou talvez seja o mais nosso de todos.

Ele chama.

Ele sacode as entranhas.

Ele nos desorganiza como um soco no estômago, tirando o ar,
mas devolvendo um outro tipo de vida.

Seguimos sem mapa, sem promessa, sem a menor ideia de chegada.

Mas com um desejo — bruto, inexplicável, irreversível —
que nos atravessa como lâmina quente.

E então entendemos: não é sobre encontrar o fim do caminho.

É sobre ser devorado por ele e ainda assim arder de vontade de continuar.

Olfateamos o tempo como feras antigas,
com uma paciência que não aprendemos — lembramos.

E no silêncio mais fundo, onde o medo deveria gritar, sabemos.

Sabemos com uma certeza que não pede prova, que não aceita dúvida,
que não negocia com o mundo: isso é real.

E nada — nem a dor, nem a perda, nem nós mesmos —
será capaz de nos parar um na direção do outro.


J. Kasra — Todos os direitos reservados

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