CAVERNAS INTERIORES
Há quem entenda as palavras
como quem decifra mapas esquecidos sobre uma mesa antiga.
Reconhece direções, distâncias, sinais de abandono.
Sabe onde a dor começou a construir morada,
onde o silêncio aprendeu a respirar sozinho,
onde a voz treme
antes de cair dentro da própria sombra.
Mas compreender…
compreender é outra profundidade.
É permanecer diante de alguém
como o mar permanece diante das pedras:
sem exigir explicações,
sem pedir tradução ao abismo.
Porque entender pertence ao pensamento.
Compreender pertence ao que pulsa abaixo dele.
O entendimento recolhe nomes.
A compreensão recolhe ruínas.
Um observa a superfície das águas.
O outro desce até os minerais escuros
que dormem no fundo.
E existem pessoas perfeitamente entendidas
que continuam dançando com a solidão
em quartos cheios de respostas.
Porque ninguém é salvo
por ser explicado.
O ser humano é uma geologia de silêncios.
Carrega veios de ferro atravessando memórias antigas,
quartzos frágeis escondidos sob camadas de orgulho,
montanhas emocionais sustentadas
por raízes que nunca receberam luz.
Há lágrimas que nascem do instante.
Outras vêm de cavernas interiores
onde o tempo pinga lentamente
sobre pedras ancestrais
há séculos.
E compreender alguém
é escutar até mesmo aquilo
que ela não conseguiu sobreviver para dizer.
Depois disso, tudo muda.
Os olhos perdem a pressa.
O coração abandona a arrogância das certezas.
E o amor deixa de perguntar tanto.
Porque amar profundamente
não é decifrar o outro.
É sentar-se ao lado do mistério,
permanecer
e sentir.
J. Kasra
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