10/25/26

ENSAIOS HUMANOS - DESEJO X VAZIO - QUANDO POSSUIR DEIXA DE SER SUFICIENTE


 

DA SÉRIE — ENSAIOS HUMANOS

Por J. Kasra

DESEJO X VAZIO

QUANDO POSSUIR DEIXA DE SER SUFICIENTE

Ensaio filosófico

Há uma espécie de fome que nenhum alimento consegue calar.

Ela não nasce no estômago. Nasce na consciência.

O ser humano deseja. Deseja pessoas, dinheiro, reconhecimento, poder, beleza, prazer, viagens, conquistas, corpos, aplausos, respostas. Constrói objetivos, alcança alguns, abandona outros e imediatamente inventa uma nova distância para percorrer.

A conquista dura pouco.

O desejo permanece.

Existe algo de profundamente contraditório nisso. O ser humano passa boa parte da existência tentando chegar a algum lugar e, ao chegar, descobre que a chegada perdeu o encanto no instante em que deixou de ser promessa.

O objeto desejado envelhece.

A posse banaliza.

A novidade perde o brilho.

E a fome procura outro nome.

O problema não está em desejar. O desejo é uma das forças mais poderosas da existência. Sem ele, haveria menos criação, menos movimento, menos descoberta, menos coragem para atravessar o desconhecido.

O abismo começa em outro ponto.

Quando o desejo deixa de ser uma força de expansão e passa a ser uma tentativa desesperada de preencher aquilo que a consciência não suporta contemplar.

Nesse momento, desejar deixa de significar viver.

Passa a significar fugir.

O DESEJO COMO DISFARCE

Há pessoas que acumulam conquistas com a mesma voracidade com que outras acumulam objetos.

Mais dinheiro.

Mais experiências.

Mais amantes.

Mais seguidores.

Mais títulos.

Mais atenção.

Mais provas de que existem.

O mundo moderno aperfeiçoou essa doença com uma eficiência impressionante. Transformou o desejo em mercado, a comparação em combustível e a insatisfação em modelo de negócio.

Nunca é suficiente.

Não basta ter.

É necessário mostrar.

Não basta viver.

É necessário provar que se viveu.

Não basta ser desejado.

É necessário ser desejado diante de testemunhas.

O desejo, então, deixa de nascer da intimidade e passa a obedecer ao olhar alheio.

A pessoa já não pergunta o que quer.

Pergunta o que deveria querer para parecer bem-sucedida.

E existe uma diferença brutal entre essas duas coisas.

Uma nasce da consciência.

A outra nasce da necessidade de aprovação.

O ser humano pode passar anos perseguindo uma vida que jamais escolheria se ninguém estivesse olhando.

A EMBRIAGUEZ DA CONQUISTA

Existe uma embriaguez peculiar em conseguir aquilo que parecia impossível.

Durante algum tempo, a conquista produz a sensação de vitória sobre a própria insuficiência.

O indivíduo olha para aquilo que alcançou e pensa ter finalmente encontrado a resposta.

Então o encanto passa.

O que ontem parecia extraordinário se transforma em rotina.

O extraordinário tem uma característica cruel: quando se torna cotidiano, deixa de parecer extraordinário.

E o desejo, viciado em novidade, começa outra perseguição.

Não é mais aquela pessoa.

Agora é outra.

Não é mais aquele dinheiro.

Agora é mais.

Não é mais aquele reconhecimento.

Agora é maior.

Não é mais aquela experiência.

Agora precisa ser mais intensa.

O desejo aprende rapidamente a trocar de objeto sem jamais questionar a própria fome.

Essa é uma das maiores tragédias da existência: o ser humano pode passar a vida inteira mudando aquilo que procura sem jamais investigar aquilo que o faz procurar.

O VAZIO NÃO PRECISA DE MUITO ESPAÇO

O vazio não exige pobreza.

Pode morar em mansões.

Pode vestir roupas caras.

Pode dormir ao lado de alguém.

Pode ocupar cargos importantes.

Pode receber aplausos.

Pode possuir tudo aquilo que desperta inveja em quem observa de fora.

O vazio não se impressiona com patrimônio.

Ele conhece a diferença entre possuir coisas e possuir sentido.

Há pessoas cercadas por tudo e completamente abandonadas por dentro.

E há pessoas com quase nada que carregam uma presença que nenhum luxo consegue comprar.

O problema nunca foi a quantidade de coisas.

É a quantidade de significado.

Quando o sentido desaparece, o excesso se transforma em ruído.

Quanto mais se acumula, mais difícil fica ouvir aquilo que permanece silencioso dentro da consciência.

Por isso algumas pessoas não conseguem parar.

Parar significaria escutar.

E escutar poderia revelar algo inconveniente: a corrida nunca foi para conquistar o mundo.

Era para não encontrar a si mesmas.

O DESEJO E A SOLIDÃO

Existe ainda uma forma mais sofisticada de vazio.

Desejar alguém para não precisar estar consigo.

Transformar o outro em anestesia.

Confundir paixão com salvação.

Confundir intensidade com profundidade.

Confundir necessidade com amor.

O outro passa a carregar uma responsabilidade impossível: preencher um espaço que não nasceu nele.

Nenhuma pessoa deveria receber a tarefa de curar aquilo que outra se recusa a compreender.

Isso não é amor.

É transferência de vazio.

E o vazio transferido continua sendo vazio.

Por isso algumas relações começam como incêndios e terminam como cinzas.

Não faltou desejo.

Faltou presença.

Não faltou intensidade.

Faltou consciência.

O desejo queria possuir.

O amor exigia reconhecer.

São forças diferentes.

A SOCIEDADE DA INSATISFAÇÃO

A sociedade descobriu algo extremamente lucrativo: uma pessoa satisfeita compra menos, compete menos e demonstra menos necessidade de aprovação.

Então criou-se uma cultura baseada na insuficiência.

Seu corpo precisa melhorar.

Sua casa precisa melhorar.

Seu salário precisa aumentar.

Sua aparência precisa mudar.

Seu relacionamento precisa parecer perfeito.

Sua vida precisa ser interessante.

Seu sucesso precisa ser visível.

Sempre existe alguma coisa faltando.

E quando nada falta, inventa-se uma falta.

O mercado não vende apenas produtos.

Vende a sensação de que você ainda não é suficiente.

O desejo passa a funcionar como uma coleira invisível.

Corre.

Alcança.

Compra.

Mostra.

Compara.

Repete.

E o ser humano chama isso de liberdade.

QUANDO O OBJETO PERDE O PODER

Existe um momento em que a pessoa percebe que aquilo que desejava não possuía o poder que imaginava.

A casa não trouxe paz.

O dinheiro não trouxe pertencimento.

O corpo desejado não trouxe permanência.

O reconhecimento não trouxe identidade.

A conquista não trouxe descanso.

A posse não trouxe plenitude.

E então surge uma pergunta que assusta mais do que qualquer fracasso:

O que resta quando aquilo que eu queria deixa de me satisfazer?

Essa pergunta desmonta muitas ilusões.

Ela retira a maquiagem do desejo.

Obriga a consciência a olhar para uma região que nenhuma conquista consegue iluminar.

O vazio.

Não como ausência de coisas.

Como ausência de sentido.

O DESEJO NÃO É O INIMIGO

Seria fácil transformar o desejo em vilão.

Seria também intelectualmente preguiçoso.

O desejo cria.

O desejo move.

O desejo provoca.

O desejo desafia limites.

O problema começa quando o desejo se torna senhor de uma consciência que já não sabe distinguir necessidade de compulsão.

Desejar pode ser uma forma de afirmar a vida.

Desejar tudo para escapar da própria existência é outra coisa.

A diferença está na relação entre o indivíduo e aquilo que ele busca.

Quem domina o desejo pode utilizá-lo como força.

Quem é dominado por ele transforma a própria vida numa perseguição interminável.

E uma perseguição sem destino continua sendo apenas uma fuga com aparência de propósito.

O VAZIO NÃO DESAPARECE COM MAIS

Há uma crueldade silenciosa nisso tudo.

Quanto mais o ser humano tenta preencher o vazio exclusivamente com coisas externas, mais dependente dessas coisas se torna.

Precisa de mais prazer para sentir o mesmo prazer.

Mais reconhecimento para sentir o mesmo valor.

Mais conquistas para sentir a mesma vitória.

Mais intensidade para escapar do mesmo silêncio.

O vazio aprende.

Ele exige doses maiores.

E chega um momento em que nada do lado de fora possui força suficiente para silenciá-lo.

Nesse instante, a pessoa pode ter tudo aquilo que passou anos desejando e ainda sentir que está perdendo alguma coisa.

Não sabe dizer o quê.

Apenas sente.

E continua procurando.

A DIFÍCIL ARTE DE NÃO FUGIR

A maior forma de coragem pode não estar em conquistar.

Está em permanecer.

Permanecer diante do silêncio.

Diante da própria insuficiência.

Diante das contradições.

Diante daquilo que não pode ser comprado, seduzido, manipulado ou conquistado.

O ser humano amadurece quando deixa de exigir que o mundo seja responsável pela sua completude.

Nenhuma posse substitui consciência.

Nenhum corpo substitui intimidade.

Nenhum aplauso substitui identidade.

Nenhuma conquista substitui sentido.

O desejo pode apontar caminhos.

Mas não pode decidir quem somos.

Essa responsabilidade permanece.

E é aí que começa a parte mais difícil da existência: descobrir se aquilo que chamamos de desejo realmente nos conduz à vida ou apenas nos mantém ocupados demais para perceber o vazio.

O QUE PERMANECE

No fim, quase tudo aquilo que desperta obsessão perde alguma coisa com o tempo.

A beleza muda.

O dinheiro circula.

O poder passa.

A juventude desaparece.

A admiração encontra outro objeto.

A novidade envelhece.

As pessoas partem.

As conquistas viram lembranças.

E o desejo, depois de consumir uma longa fila de promessas, finalmente encontra o que tentou evitar durante toda a vida.

A própria consciência.

Esse é o momento mais brutal.

Descobrir que o vazio nunca esteve no mundo.

Estava na distância entre aquilo que se possuía e aquilo que se era.

O ser humano pode passar a vida inteira tentando possuir tudo para não sentir falta de si mesmo.

E essa é a ironia mais cruel do desejo:

passamos anos tentando preencher o vazio com aquilo que queremos, sem perceber que o vazio cresce na mesma medida em que nos afastamos de quem somos.

No fim, não é a falta que destrói o ser humano.

É a incapacidade de suportar a própria presença quando já não existe nada para desejar.


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