DA SÉRIE — ENSAIOS HUMANOS
Por J. Kasra
A AUTENTICIDADE E O ABISMO INTERIOR
Ensaio filosófico
Somos livres.
Mas quantos de nós realmente se expressam?
A liberdade costuma ser celebrada como um direito, enquanto sua forma mais profunda permanece esquecida: a liberdade de existir sem pedir licença para ser quem se é.
Aprendemos cedo a esconder o que incomoda. A suavizar o que pensamos. A engolir o que sentimos. A vestir palavras aceitáveis sobre sentimentos que jamais seriam aceitos em sua forma original. Aos poucos, construímos uma versão social de nós mesmos e passamos a apresentá-la como identidade.
O mundo conhece nosso rosto.
Raramente conhece nosso abismo.
Cada ser humano carrega um território que ninguém consegue visitar completamente. Há pensamentos que jamais foram pronunciados, feridas que nunca encontraram testemunhas, batalhas travadas em silêncio enquanto o rosto permanecia sereno diante dos outros.
Quantas lutas internas existem atrás de um sorriso?
Quantas tempestades atravessaram pessoas que pareciam apenas estar vivendo mais um dia?
Quantos rios de lágrimas foram navegados em absoluta solidão?
Há sofrimentos que não deixam cicatrizes visíveis. Há dores que não pedem socorro. Há pessoas que aprenderam a sofrer com tanta elegância que o mundo confundiu sua resistência com ausência de sofrimento.
E existe também o outro lado, quase sempre esquecido.
A alegria.
Aquela vontade quase primitiva de gritar ao mundo uma felicidade que não cabe no peito. De celebrar uma conquista. De dizer “eu consegui”. De ser reconhecido não por vaidade, mas pela necessidade humana de saber que aquilo que fizemos alcançou alguém.
Mas o reconhecimento também é raro.
O mundo costuma perceber o resultado e ignorar o caminho.
Enxerga a chegada, não as noites.
Enxerga o sorriso, não o preço.
Enxerga a força, não as vezes em que quase desabamos.
Essa é uma das maiores tragédias da existência: cada pessoa conhece profundamente a própria história e, ainda assim, quase ninguém consegue enxergar a história que existe dentro do outro.
Somos multidões atravessando multidões.
Cada um carregando seus mortos, seus desejos, seus medos, suas esperanças, seus fracassos, suas pequenas vitórias e seus demônios particulares.
E tudo se mistura.
Uma palavra desencadeia outra. Um acontecimento desperta uma memória. Uma ausência modifica uma escolha. Uma escolha altera um caminho. Um encontro abre uma fronteira. Uma perda fecha outra.
Somos atravessados por acontecimentos que não terminam quando terminam.
Eles continuam dentro de nós.
Uma avalanche de eventos desencadeando outros eventos, atravessando fronteiras interiores que nem sempre conseguimos romper. Algumas permanecem intactas durante anos. Outras cedem de repente, diante de uma palavra, de um olhar, de uma lembrança aparentemente insignificante.
Nada dentro de nós acontece isoladamente.
Somos consequência de encontros, rupturas, silêncios, excessos, ausências e decisões.
E ainda assim insistimos em nos apresentar ao mundo como se fôssemos simples.
Não somos.
O ser humano é um território contraditório.
Pode desejar liberdade e temer as consequências dela.
Pode querer ser reconhecido e esconder aquilo que mais deseja mostrar.
Pode amar profundamente e construir muralhas ao redor do próprio afeto.
Pode desejar autenticidade e continuar interpretando personagens que já não reconhece diante do espelho.
A máscara não nasce apenas da mentira.
Às vezes nasce do medo.
Medo de não ser compreendido.
Medo de perder alguém.
Medo de parecer fraco.
Medo de ser excessivo.
Medo de ser diferente.
Medo de mostrar aquilo que existe por trás daquilo que todos esperam encontrar.
E assim começamos a negociar conosco.
Diminuímos a própria voz para não incomodar.
Escondemos a própria intensidade para não assustar.
Negamos desejos para preservar vínculos.
Calamos opiniões para conservar lugares.
E, pouco a pouco, aquilo que fazemos para pertencer começa a nos expulsar de nós mesmos.
Essa é uma prisão particularmente cruel.
Ninguém precisa trancá-la.
Nós mesmos construímos suas paredes com pequenas concessões diárias.
Até que um dia olhamos para dentro e percebemos que passamos tanto tempo tentando ser compreendidos que esquecemos de nos compreender.
Autenticidade não é dizer tudo.
Não é transformar sinceridade em brutalidade.
Não é usar a verdade como arma.
Autenticidade é não precisar amputar partes de si para caber na expectativa alheia.
É reconhecer a própria contradição sem transformá-la em vergonha.
É olhar para o próprio abismo sem precisar decorá-lo para receber visitas.
O mundo não precisa conhecer todos os nossos rios.
Mas nós precisamos saber que eles existem.
Precisamos reconhecer nossas tempestades, nossas alegrias, nossos medos, nossos desejos e nossas feridas antes que a opinião alheia se torne a autoridade sobre aquilo que somos.
Existe uma diferença brutal entre viver de acordo com os outros e viver em paz consigo mesmo.
No primeiro caso, você pode ser admirado.
No segundo, você pode finalmente ser inteiro.
E o maior ato de liberdade não seja romper todas as correntes externas, mas parar de trair a própria essência para permanecer aceito.
O mundo continuará julgando.
Continuará interpretando.
Continuará criando versões de nós que jamais conheceremos.
Deixe que crie.
Ninguém possui acesso completo ao território de outro ser humano.
Nem mesmo aqueles que nos amam.
Existe dentro de cada pessoa uma região onde ninguém entra sem convite.
Um lugar feito de silêncio, memória, medo, desejo e verdade.
É ali que a autenticidade começa.
Não quando o mundo finalmente nos entende.
Mas quando deixamos de precisar ser entendidos para continuar sendo quem somos.
E então a pergunta permanece, incômoda:
quantas partes de nós ainda estão vivas, esperando que tenhamos coragem de deixá-las existir?
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