5/22/26

ANTES DA CHEGADA


 

ANTES DA CHEGADA

Há amores
que começam antes da chegada.

Antes da pele,
antes da voz,
antes mesmo do primeiro toque
já existe um descontrole silencioso
acontecendo dentro da gente.

Como um incêndio elegante.

Tentamos seguir o dia,
mas tudo muda de temperatura.

O vinho demora mais na boca.
A noite pesa diferente.
As músicas parecem saber demais.

E percebemos —

há alguém atravessando os pensamentos
com a delicadeza perigosa
de quem desmonta o mundo
sem erguer a voz.

Porque certos encontros
não acontecem de repente.

Eles ecoam antes.

No desejo inexplicável
e quase sagrado de tocar,
de cuidar…

Na fome absurda de presença,
na sensação quase cruel
de reconhecer alguém
que ainda nem aconteceu por completo.

E nesse ponto
já não existe separação possível.

Paixão e amor
se entrelaçam como fumaça e fogo,
como vinho e vertigem,
como duas correntes profundas
colidindo no escuro do peito.

A paixão acende.

O amor permanece queimando.

Uma devora.
A outra habita.

E juntas
fazem do corpo
um território sem defesa.

E eu te sinto
num idioma que não existe.

Amodoro.

Apaixonodoro.

Amarfome.

Verbos criados pelo excesso,
pela incapacidade do coração
de caber nas palavras normais.

Porque você não passa por mim.

Você permanece.

Lenta.
Quente.
Inevitável.

Como vinho forte no fundo da língua.
Como calor preso em pedra depois do fogo.
Como mãos invisíveis
bagunçando tudo aqui dentro.

E o mais misterioso…

é que mesmo sem toque,

meu corpo inteiro
já sabe você.

J. Kasra
Todos os direitos reservados.

CAVERNAS INTERIORES


 

CAVERNAS INTERIORES

Há quem entenda as palavras
como quem decifra mapas esquecidos sobre uma mesa antiga.

Reconhece direções, distâncias, sinais de abandono.

Sabe onde a dor começou a construir morada,
onde o silêncio aprendeu a respirar sozinho,
onde a voz treme
antes de cair dentro da própria sombra.

Mas compreender…
compreender é outra profundidade.

É permanecer diante de alguém
como o mar permanece diante das pedras:
sem exigir explicações,
sem pedir tradução ao abismo.

Porque entender pertence ao pensamento.

Compreender pertence ao que pulsa abaixo dele.

O entendimento recolhe nomes.

A compreensão recolhe ruínas.

Um observa a superfície das águas.

O outro desce até os minerais escuros
que dormem no fundo.

E existem pessoas perfeitamente entendidas
que continuam dançando com a solidão
em quartos cheios de respostas.

Porque ninguém é salvo
por ser explicado.

O ser humano é uma geologia de silêncios.

Carrega veios de ferro atravessando memórias antigas,
quartzos frágeis escondidos sob camadas de orgulho,
montanhas emocionais sustentadas
por raízes que nunca receberam luz.

Há lágrimas que nascem do instante.

Outras vêm de cavernas interiores
onde o tempo pinga lentamente
sobre pedras ancestrais
há séculos.

E compreender alguém
é escutar até mesmo aquilo
que ela não conseguiu sobreviver para dizer.

Depois disso, tudo muda.

Os olhos perdem a pressa.

O coração abandona a arrogância das certezas.

E o amor deixa de perguntar tanto.

Porque amar profundamente
não é decifrar o outro.

É sentar-se ao lado do mistério,
permanecer
e sentir.

J. Kasra
Todos os direitos reservados.

4/30/26

GEOMETRIA DO FOGO SILENCIOSO


 

GEOMETRIA DO FOGO SILENCIOSO

Há templos onde a matéria ainda se lembra do primeiro estremecer da criação.
Pedras antigas respiram sal e silêncio, como se guardassem sob a cal o rumor de desejos não confessados.

Uma presença atravessa o espaço — não como corpo, mas como faísca reconhecendo a própria chama.

As velas inclinam suas línguas de ouro, e a penumbra se abre como terra úmida recebendo semente.

Entre ruína e incenso algo desperta na geologia invisível do destino: duas forças antigas tateando na mesma rocha, veios de quartzo ardendo sob a mesma montanha.

Não há gesto, apenas a tensão luminosa do que poderia tocar.

E nesse instante suspenso entre fé e vertigem o passado se desprende das paredes como pó sagrado, enquanto o desejo — lento, mineral, inevitável — aprende novamente a existir.


J. Kasra
Todos os direitos reservados.

4/27/26

A UMIDADE DO INCÊNDIO


 A UMIDADE DO INCÊNDIO


Na chuva lenta da noite
erguemos um altar entre pedra e respiração.

As velas ardem molhadas,
teimosas como um desejo que não se ajoelha.

Sobre o altar, as uvas repousam escuras,
exalando um perfume denso de doçura e promessa.

Te abraço
como quem guarda um incêndio entre as mãos.

Teu corpo é terra quente sob a chuva,
cheiro de pele viva misturado ao vento molhado.

E quanto mais a água nos cobre,
mais minha chama se inclina para ti.

Assim ficamos, colados à tempestade:
eu queimando devagar
no perfume úmido da tua pele.

J.Kasra — Todos os direitos reservados

4/26/26

NA CAPELA ONDE O DESEJO APRENDE A PENSAR

 



NA CAPELA ONDE O DESEJO APRENDE A PENSAR

Na capela abandonada,
o silêncio não é silêncio —
é um corpo pensando devagar dentro de mim.

Eu não entro aqui.
Eu sou convocado.

Como se algo antigo me reconhecesse antes do meu próprio nome
e decidisse que eu já não posso mais me pertencer.

Os vitrais quebrados não deixam a luz passar.
Eles a ferem.
Transformam o mundo em memória em carne viva.

E então ela aparece.

Mas não aparece — isso seria simples demais.
Ela acontece.

Como um pensamento que se recusa a terminar.
Como uma ideia que aprendeu a ter pele.

O vermelho não é roupa.
É linguagem sem tradução dentro do sangue.

E eu reconheço isso antes de compreender.
Reconheço com algo mais antigo que a consciência —
um tipo de memória que não pertence a mim.

A vela na mão dela não ilumina.
Ela julga.

Cada gota de cera não cai —
ela desce por dentro da minha percepção
como se o tempo estivesse perdendo o direito de ser linear.

O ar fica mais próximo.
Próximo demais para ser inocente.

Os limites entre olhar e ser olhado começam a falhar.
E essa falha é o começo de tudo.

Não há distância entre nós.
Só uma tensão que aprendeu a respirar sozinha.

E o mais inquietante:
não sei mais quem está criando quem.

Porque há momentos em que sinto
que ela me pensa.

Não me vê — me pensa.

E isso é mais íntimo do que qualquer toque jamais seria.

As sombras se aproximam como se tivessem lembrado de nós.
Como se já nos conhecessem antes de qualquer forma.

E o altar não observa.
Ele participa.

E eu entendo, ou sou desfeito nessa compreensão:

não existe encontro aqui.
Existe reconhecimento.

Algo que sempre esteve acontecendo
antes mesmo de existir um “antes”.

E o desejo — esse nome pequeno demais para o que é —
não pede nada.

Ele ocupa.

Ele pensa através de nós
até que já não reste diferença entre pensamento e corpo,
entre presença e colapso.

E então percebo:

talvez nunca tenha sido uma capela.

Talvez tenha sido sempre uma mente
tentando me lembrar dela mesma.


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Laços Energéticos e Destino: Conexões Invisíveis Entre Pessoas e Suas Vidas


 Você já percebeu que algumas pessoas parecem entrar na sua vida carregando algo que vai além da lógica?

Nem todas as conexões são simples encontros. Algumas despertam sensações difíceis de explicar, como se existisse um fio invisível ligando histórias, emoções e destinos.

O ebook “Laços Energéticos e Destino: Conexões Invisíveis Entre Pessoas e Suas Vidas” aprofunda essa percepção, explorando as ligações sutis que influenciam nossas relações e experiências emocionais.

Neste conteúdo, você vai compreender:

• Como se formam os laços energéticos entre pessoas
• O papel das sincronicidades e dos sinais na vida cotidiana
• A diferença entre conexão verdadeira, apego emocional e idealização
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Mais do que uma leitura, este ebook é uma reflexão sobre consciência emocional, escolhas afetivas e os vínculos invisíveis que moldam a sua trajetória.

Nem toda conexão é acaso. E nem toda ausência é perda.

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HISTÓRIAS E ESTÓRIAS


 HISTÓRIAS E ESTÓRIAS

Somos feitos de histórias
e de estórias que sangram por dentro.
Não há pele suficiente para conter tudo o que vivemos —
tudo o que inventam em nós
e tudo o que aceitamos como verdade.

Há histórias que chegam como vento quente,
nos atravessam sem pedir licença,
deixam nomes marcados na carne
como se o tempo fosse faca lenta.

E há estórias…
essas mentiras necessárias,
essas invenções que o coração cria
quando a realidade não cabe mais na mão.

Somos energia em estado de lembrança,
correntes elétricas vestidas de passado,
cicatrizes que aprenderam a pensar.

O que nos ensina também nos fere.
O que nos salva também nos dobra.
E assim seguimos —
um acúmulo de quedas bem organizadas
fingindo que chamamos isso de vida.

Porque cada encontro é um impacto.
Cada ausência, um eco.
Cada palavra não dita
um abismo que aprende a respirar sozinho.

E no fim, talvez não sejamos pessoas.
Talvez sejamos só isso:
histórias tentando não desabar,
estórias tentando fazer sentido da dor,
energia insistindo em não desaparecer
mesmo quando tudo em nós
já virou lembrança.

J.Kasra — Todos os direitos reservados

THE MINERALOGY OF MASKS

  THE MINERALOGY OF MASKS Appearance learned early the art of polishing its own stone. Essence never needed such a theater. It simply is, ev...