ANTES DA CHEGADA
Há amores
que começam antes da chegada.
Antes da pele,
antes da voz,
antes mesmo do primeiro toque
já existe um descontrole silencioso
acontecendo dentro da gente.
Como um incêndio elegante.
Tentamos seguir o dia,
mas tudo muda de temperatura.
O vinho demora mais na boca.
A noite pesa diferente.
As músicas parecem saber demais.
E percebemos —
há alguém atravessando os pensamentos
com a delicadeza perigosa
de quem desmonta o mundo
sem erguer a voz.
Porque certos encontros
não acontecem de repente.
Eles ecoam antes.
No desejo inexplicável
e quase sagrado de tocar,
de cuidar…
Na fome absurda de presença,
na sensação quase cruel
de reconhecer alguém
que ainda nem aconteceu por completo.
E nesse ponto
já não existe separação possível.
Paixão e amor
se entrelaçam como fumaça e fogo,
como vinho e vertigem,
como duas correntes profundas
colidindo no escuro do peito.
A paixão acende.
O amor permanece queimando.
Uma devora.
A outra habita.
E juntas
fazem do corpo
um território sem defesa.
E eu te sinto
num idioma que não existe.
Amodoro.
Apaixonodoro.
Amarfome.
Verbos criados pelo excesso,
pela incapacidade do coração
de caber nas palavras normais.
Porque você não passa por mim.
Você permanece.
Lenta.
Quente.
Inevitável.
Como vinho forte no fundo da língua.
Como calor preso em pedra depois do fogo.
Como mãos invisíveis
bagunçando tudo aqui dentro.
E o mais misterioso…
é que mesmo sem toque,
meu corpo inteiro
já sabe você.
J. Kasra
Todos os direitos reservados.





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